quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Ary Lobo... Sempre!

Alô, gente!...

Bisbilhotando a net, acabei achando um ótimo texto sobre a vida e obra de Ary Lobo. Uma pena não ter o nome de quem escreveu. Assim, aos que estiveram lendo aqui, se souberem de algo, por favor, mandem pra gente. O professor, de fato, é professor. Sabe tudo de Ary Lobo, além de deixar claro tanto gosto pelo artista em questão. Leiam! Maravilha!

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O brilho do forró paraense: Ary Lobo

Edição de 16/02/2008

Memórias do Pará


A palavra forró parece estar em desuso nestas plagas paraenses, em tempos de 'calypsos' - se me faço entender - mas há algumas décadas designava um ritmo musical que enchia as festas, alegrava os ouvidos e preenchia boa parte da programação das poucas emissoras de rádio existentes. Claro que falo de uma época pré-televisiva, quando a voz se sobrepunha ao mise-en-céne e o contato com os ídolos não era tão fácil como hoje, por meio da telinha da televisão.

Um dos significados da palavra forró - cuja origem é controversa - deriva de forrobodó (barulho, confusão, muito movimento), uma designação do arrasta-pé, significado de baile popular, com um ritmo próprio das tradições do norte e nordeste. Dentro do forró podia-se inserir o coco, o baião, o xaxado e outros ritmos tradicionais do Brasil, sobretudo do seu interior e, mais especificamente ainda, inerentes à quadra junina. No início, o termo significava apenas a festa, o local onde se realizava, depois passou a significar o gênero musical e a dança. O principal palco iluminado do forró era a gafieira, palavra hoje estigmatizada, não obstante tenha sido imortalizada pelo paraense Billy Blanco no samba Estatuto da Gafieira. E tanto o forró quanto as gafieiras, no seu sentido antigo, já ficaram longe dos movimentos musicais e corporais da atualidade.

Uma das principais expressões artísticas desse período no Pará foi o cantor Ary Lobo, cuja história de vida tem marcas ciclotímicas de sucessos, de lutas e de fracassos, motivos suficientes para que o personagem não seja esquecido, embora as novas gerações não tenham a menor idéia do brilho desse artista paraense.

O ARTISTA

Ary Lobo, ou Gabriel Eusébio dos Santos Lobo, nasceu em Belém no dia 14 de agosto de 1930 e foi um dos primeiros artistas a ganhar projeção nacional como cantor de forró. Infelizmente ele veio a falecer, na mais penosa indigência, em Fortaleza, no ano de 1980, aos 50 anos e completamente esquecido nos meios artísticos e, o que foi mais grave, em sua própria terra.

Em artigo que publicou em 'O Liberal' no ano de 1996, sob o título 'Ausência de Ary Lobo', o advogado José Carlos Castro, ao descrever as características musicais do cantor paraense, afirmou que 'Ary Lobo fez o Brasil inteiro cantar com a singeleza de suas interpretações e pela forma correta do emprego da linguagem regional. O Norte e o Nordeste, o sertão e a serra, o homem e a natureza tinham expressão existencial nesse estilo de música'. Sobre o valor do intérprete diz o artigo: 'O curioso de toda a trajetória de Ary Lobo é o seu valor artístico como intérprete correto, que não merece o olvido que a cultura nortista lhe propicia até o dia de hoje. Estivesse ele vivo, com dezenas de discos gravados, certamente, estaria participando de eventos e promoções. No momento de crise de nossa música seria interessante que se reabilitasse a sua memória, em nome de seu inolvidável valor de intérprete'.

Essa reabilitação chegou a ser tentada, de certa forma, em Belém, no ano de 2004, pelo projeto Quaderna, no Instituto de Artes do Pará, sob a responsabilidade de Cincinato Jr, Alan Carvalho e Camilo Delduque. O objetivo do trabalho foi detectar a presença de traços culturais nordestinos na música da região amazônica, sobretudo na paraense. E consideraram que 'o maior traço nordestino na música popular feita na região é o trabalho do cantor e compositor paraense Ary Lobo.

Acreditamos dizer que Ary Lobo foi a contribuição maior que a Amazônia deu à cultura nordestina. Ele faz o movimento inverso, é a Amazônia emprestando o seu sotaque ao nordeste'. No belo CD que lançaram, Ary Lobo comparece representado pelas músicas 'Patrulha da Cidade' (Severino Ramos e Avellar Júnior) e 'Filho de Tupinambá' (Ary Lobo e Barbosa da Silva). O registro é importante para recuperar, embora de forma pouco divulgada, o valor da obra musical de Ary Lobo.

A CARREIRA

Pintor de profissão e cabo da Aeronáutica, Ary Lobo começou fazendo sucesso nas gafieiras e auditórios de Belém, e em 1955 arriscou vôo para o Rio de Janeiro, começando uma carreira de grande projeção, com sucessos que marcaram época em todo o país. Só na gravadora RCA Victor, Ary Lobo gravou nove LPs, sem contar os primeiros sucessos ainda em discos de 78 rotações e os inúmeros discos compactos (pequenos vinis de duas ou quatro músicas). Mas ainda está na lembrança dos mais antigos o seu primeiro grande sucesso, composição sua em parceria com Luis de Freitas, Eu vou pra Lua - 'Eu vou pra lua, eu vou morar lá/Pego meu Sputnik...' - lançado em 1957 e ainda hoje uma crítica atualíssima às políticas sociais de então, à burocracia, aos impostos e à pobreza da população. Posteriormente veio a ser um grande intérprete do compositor nordestino Gordurinha, destacando-se seu maior sucesso Súplica Cearense - 'Oh Deus! Perdoe esse pobre coitado, que de joelho rezou um bocado, pedindo pra chuva cair sem parar...' - lançado por Ary Lobo e que já recebeu incontáveis regravações.

O PARÁ

A presença de Ary Lobo no cenário artístico nacional não o desvinculava de Belém, berço natal que estava sempre a homenagear, como se pode ver de quatro músicas que escolhi no meu acervo para ilustrar isso. A primeira, Forró lá no Bosque, tem a seguinte e singela letra: 'Na minha terra tem uma gafieira onde a rapaziada vai aprender a dançar/ localizada no Bosque Rodrigues Alves/ perto da Bandeira Branca em Belém do Pará/ Ai que saudade daquela cabana lá dentro da mata/ onde o pau comia, poeira subia, mas não se largava a mulata/ camisa ensopava, a turma tirava, espremia o suor e tornava a vestir/ mas que saudade do forró lá do bosque, ah se aquele forró fosse aqui'. A outra música, Eu sou de Belém do Pará, evoca assim a sua terra: 'Mais de vinte anos amargando, no meu peito a saudade da cidade onde nasci e cresci/ Mais de vinte anos se passaram/ tantas lembranças ficaram, pra me torturar, bem sentir/ Hoje tudo está tão diferente, tanto tempo estou ausente/ não sei se volto mais lá/ Embora você não pense, não nego sou paraense, sou de Belém do Pará'.

A terceira música, Bate Malva, é do compositor paraense Oswaldo Oliveira - outro esquecido - e também muito expressiva da regionalidade de onde se originou: 'Corta malva, corta malva, bota no fogo pra malva secar/ bate malva, bate malva e põe na lagoa pra malva inchar/ Lá no norte onde eu morava, no interior do Pará, os colonos plantam malva, pra família sustentar/ Pois é com o dinheiro da malva que pagam a escola pros filhos estudar/ Quando está chegando outubro/ vou lhe contar como é/ vai pra dentro do roçado, marido, filho e mulher/ Pois que tem que ganhar boa nota pra passar na cidade a festa de Nazaré'.

Se Ary Lobo soubesse que no solo de sua terra quase já não se planta malva e que, mais recentemente, chegou por aqui a tal da soja que, mesmo mirrada de tamanho, ameaça nossa floresta! A malva de outrora expressava a afetividade de Ary lobo por suas origens, que fazia sempre questão de cantar, onde e como pudesse.

A quarta música foi um sucesso composto pela dupla J. Cavalcanti e Assis Barros, Vendedor de Açaí, que Ary Lobo imortalizou no seu apreço pelo Pará: 'Olha o gostoso açaí e o saboroso tacacá/ Preciso vender todinho para os meus filhos criar/ Na Bíblia tem uma lei, crescei e multiplicai/ parece que abusei, tenho herdeiros até demais/ Tem sete meninos estudando, tem sete querendo estudar, tem sete meninos esperando, o destino que Deus vai lhe dar/ Já pensou que alegria, terá eu e Conceição/ ver nossos filhos criados, com bastante educação/ nós não tivemos estudo, mas podemos educar/ peço a Deus que abençoe quem neste lado comprar/ açaí, tacacá...'

O OCASO

São centenas de músicas gravadas ao longo de quase 30 anos de carreira de Ary lobo, e ele não alcançou a época do CD. Depois de sua morte, foi relançado um LP e vários CDs, todos em catálogo no mercado, embora difíceis de encontrar. Seus maiores sucessos incluem músicas de sua autoria, e de muitos outros compositores, paraenses, nordestinos e do sul.

Em 1961 assisti pela primeira vez a um show de Ary Lobo. Foi numa noite chuvosa em Castanhal. Eu contava 14 anos, ele estava com 31, no auge de sua relativamente curta carreira. Eu já era ligado nas suas músicas e a partir dessa apresentação, tornei-me fã dedicado do cantor, a quem fiquei acompanhando de longe, mas sempre com acesso aos seus discos. Percebi o seu declínio musical, natural na rápida evolução do mercado fonográfico mas não tive noção do drama pessoal que o levou para um fim tão trágico em Fortaleza, longe de seu torrão natal. Ainda hoje mantenho o hábito de escutar as músicas de Ary Lobo e nunca pensei em prestar publicamente tributo a sua memória, como faço agora, compungido. Cada vez mais me convenço de que um dia, há tempos, o Pará já teve outra estrela de primeira grandeza nacional, na música popular. Salve, Ary Lobo! Viva o forró!

* O autor é cientista político, jornalista e professor aposentado da UFPa


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Abraços do Quaderna!

3 comentários:

J.BOSCO disse...

Grande Allan, esse texto é do professor José Carneiro,que também escreveu sobre Oswaldo Oliveira em O LIBERAL
É um estudioso no assunto!!
parabéns pelo post.
Viva Ary Lobo!!!!!!!
abraços

Quaderna disse...

Fale, meu cumpade!...
Maravilha de resposta!!!
Tens o contato dele?

E vamos ver se sai uma farrinha este ano. Precisamos molhar a palavra, de fato.

PS: vou correr atrás da matéria dele sobre o Vavá.

filipe disse...

GRANDE ARY LOBO, eis aqui um Capixaba de 26 anos que admira muito a sua musica, onde esteja um forte abraço.

Filipe.